A primeira em Espanha, a segunda numa favela do Rio de Janeiro. Esta ultima tem como objectivo mostrar os olhos daqueles que vivem na favela aos que a olham de fora. Qualquer coisa...
Mark David Chapman, o homem que chamou a atenção do mundo ao assassinar John Lennon na noite de 8 de Dezembro de 1980, à porta do Dakota, encontra-se ainda hoje recluso na Attica State Prison, em Nova Iorque, tendo visto ser-lhe negada por quatro vezes a liberdade condicional, apesar de já terem vencido 20 anos da pena a que foi condenado. Todavia, Chapman talvez pudesse ter evitado pena tão pesada se tivesse invocado a insanidade como responsável pelo seu acto. Mas decidiu não o fazer, contrariando mesmo os conselhos da defesa. No entanto, sinais na sua personalidade e percurso de vida apontam para um possível caso de esquizofrenia. É evidente que sofrer de esquizofrenia não significa ser-se um assassino, nem Mark Chap-man era propriamente um psicopata típico. Mas apresentava sinais de sociopatia, como fica bem demonstrado em Capítulo 27, filme de estreia de J. P. Schaefer, nomeadamente no retrato que faz da sua incapacidade relacional.
Chapman era muito provavelmente um psicótico. Sofria de diversos tipos de delírio, tais como os de grandeza quase messiânica, possível compensação psíquica para a sua profunda falta de amor--próprio e para o seu enorme complexo de inferioridade. Habitavam-no raivas antigas, principalmente em relação ao pai, que ele não suportara ver tratar mal a mãe durante a infância. Em consequência desse trauma, retirou-se progressivamente para um mundo interior de fantasia. Na escola foi vítima de bullying por não ser bom atleta. Em adolescente, tinha os Beatles como banda favorita, era cristão e distribuía excertos da Bíblia. Trabalhou num campo de férias e era muito popular entre as crianças.
Mais tarde, foi despedido de vários empregos, abandonou os estudos universitários e desenvolveu uma depressão associada a sentimentos de culpa por ter traído a namorada. Trabalhou como vigilante, tendo abandonado a casa dos pais após uma discussão. Em 1977, fez uma tentativa falhada de suicídio, foi hospitalizado por doença mental, tendo depois trabalhado no próprio hospital. Muitos daqueles que melhor o conheceram ao longo da vida achavam-no uma boa pessoa. O livro de J. D. Salinger À Espera no Centeio(ver caixa) exerceu sobre si uma influência profunda, ao ponto de quase assumir a identidade do protagonista, um adolescente de 16 anos que passa uns dias em Nova Iorque, confuso e impreparado para o mundo, depois de abandonar o colégio interno que frequentava. O mencionado "capítulo 27" do título do filme foi aquele que Chapman quis acrescentar ao livro (composto por 26).
Embora algo obscuras, as motivações do seu crime prenderam-se com a raiva que este sentia em relação àquilo que considerava ser a hipocrisia de Lennon, que cantava um mundo sem possessões e vivia afinal uma vida burguesa. No fundo, Chapman era um moralista implacável que decidiu arvorar-se em anjo exterminador. Mas não seria isso também hipócrita ?
O último dia de um mito do 'rock'n'roll'
Nova Iorque, 1980. Horas antes de ser assassinado, John Lennon deu um autógrafo ao homem que o matou
John Lennon viva um momento de felicidade nessa recta final de 1980. Após cinco anos de silêncio (dedicados essencialmente à família e ao acompanhar da infância do filho Sean), regressara aos discos com a edição do álbum DoubleFantasy, que se perfilava como um dos grandes êxitos da temporada. Na manhã de 8 de Dezembro, John e Yoko acordaram cedo. Tomaram o pequeno-almoço no La Fortuna, perto do Dakota, o prédio de luxo, em arquitectura neogótica, onde viviam, na esquina da Rua 72 com o Central Park. Lennon passou depois pelo barbeiro, para um corte radical. Uma sessão fotográfica pedia novo look.
Era Annie Leibovitz a fotógrafa convidada para ilustrar a entrevista à RollingStone. Nas palavras, Lennon mostrava-se optimista, enfrentando a nova década. Duas horas depois da entrevista, a fotógrafa bate à porta. E desafia Lennon e Yoko a despirem-se para a câmara. Aceitam, deitam-se e Leibovitz captou o momento, que apareceria na capa da RollingStone em Janeiro de 1981. Seriam as últimas fotografias do casal.
Depois do almoço, John e Yoko rumaram aos estúdios Hit Factory, onde trabalhavam já num novo álbum (que seria depois editado postumamente sob o título Milk and Honey). Nessa tarde trabalharam um tema com travo disco: Walking on Thin Ice, no qual o casal mostrava sinais de atenção para com as músicas dos tempos que corriam. De passagem pelo Dakota, mais tarde, Lennon é abordado por um jovem que lhe dá a capa de DoubleFantasy a assinar. É Mark Chapman, o mesmo que horas depois dispararia sobre si.
A tarde dera boas notícias a Lennon. O álbum acabara de chegar ao galardão de Ouro em Inglaterra... O próprio David Geffen (o editor) passara pelo estúdio para dar a boa nova. Pelas 22.30, Lennon dá por terminada a sessão. Passam pelo Stage Deli, perto dos teatros, para comer. E regressam a casa, onde os espera o filho.
A noite estava tranquila. Eram 22.52 quando Lennon sai da limousine para entrar pelo portão do Dakota. Uma figura sai da sombra, chama-o e dispara cinco tiros. Os quatro primeiros atingem Lennon nas costas. Dá uma pirueta, e atira pelo ar as cassetes com as gravações desse dia de trabalho. A sangrar, entra na casa do porteiro. Yoko, em desespero, grita por ajuda.
Um taxista que por ali passava chama a polícia. E, quando dois agentes chegam, o ascensorista aponta para Mark Chapman, que ali ficara parado a ver...
É num carro da polícia que John Lennon é transportado, ainda vivo, para o St Luke's Rosevelt Hospital. Aí é submetido a uma cirurgia de urgência, mas tinha já perdido muito sangue e, às 23.07, é dado como morto.
A notícia corre mundo. Yoko fecha-se em casa e ouve, na rua, uma multidão a cantar Imagine e Give Peace a Chance pela noite fora...